Cerca de 1,5 milhão de “ibero-americanos” estavam morando na Espanha em janeiro de 2006.
Em Madri, eles eram mais de um décimo da população

Cécile Chambraud
correspondente do Le Monde em Madri

Pé ante pé, os latino-americanos se instalaram maciçamente na Espanha ao longo dos últimos seis anos. Junto com os marroquinos (530.000) e os romenos (380.000), eles estão no coração da poderosa e rápida corrente de imigração que, desde o final da década passada, contribui para modificar em profundidade a sociedade espanhola. Vindos do Equador (500.000), da Colômbia (270.000), da Bolívia (135.000), do Peru ou da República Dominicana, eles constituem a metade da imigração que não é oriunda da comunidade européia.
Os “ibero-americanos” passaram de 190.000 em 2000 para 1,5 milhão em janeiro de 2006. Em Madri, onde o seu número oscila entre 300.000 e 400.000, ou seja, mais de um décimo da população, os seus traços geralmente pré-colombianos conferem a certos bairros de Tetuán, de Usera ou de Ciudad Lineal uma aparência andina. Eles escolheram a Espanha para ser seu novo mundo e estão apenas começando a se implantar no país.
Sentados no pequeno sofá da Acobe, uma associação de ajuda aos bolivianos, Hector e Elvira Fernández não se mexem. Eles têm o semblante amarrado e tenso de pessoas para quem as coisas não estão correndo do jeito que elas queriam. Foi ela a primeira a ter deixado a região de Cochabamba, em fevereiro de 2004.
O seu filho primogênito estava concluindo seus estudos secundários e ele queria seguir carreira no colégio militar. Mas, para tanto, é preciso pagar, “assim como por tudo na Bolívia: pela escola, pelo hospital, por tudo”, insiste Hector. Em sua cidade, os salários miseráveis não lhes permitiam juntar dinheiro o bastante para fazer com que o seu filho pudesse estudar. Detentora do endereço de um conhecido da família em Madri, Elvira pegou o avião.
Ela começou trabalhando nos domicílios de particulares, das 8h às “23h ou meia-noite, eram eles que decidiam”. A sua remuneração era de 600 euros (R$ 1.659) mensais, dos quais 150 euros (R$ 414,75) serviam para pagar o aluguel do seu quarto. “Fiquei nessa situação durante três meses, entre o choro o desespero”, recorda-se. Ela acabou chamando o seu marido, que veio para ficar com ela, deixando os seus dois filhos entregues à própria sorte, cuidando deles mesmos.


Na Bolívia, Hector dirigia caminhões. Na Espanha, ele começou cuidando de crianças. A sua mulher encontrou um emprego doméstico para os dois, numa família de cinco crianças. “Nós não jantávamos antes das 2h ou 3h da madrugada. Nunca tínhamos qualquer folga. Nós não pensávamos que seria tão difícil”, contam. Ao perceberem que a sua estada duraria mais do que o previsto, eles chamaram o seu filho caçula, que hoje tem 13 anos. Com isso, eles tiveram de alugar uma moradia: 350 euros (R$ 967,74) por um dormitório no bairro de Usera, no sul de Madri.
Elvira trabalha de meio-período por 500 euros (R$ 1.382,49) por mês, para “pessoas legais” que a ajudaram a obter documentos. Por sua vez, Hector consegue aqui e lá curtos contratos na construção civil, mas ele está longe de encontrar um trabalho em tempo integral.
Muitos são aqueles que começaram desta forma. Na maioria dos casos, e esta é uma das características marcantes desta imigração, as mulheres são as primeiras a fazer a viagem. Elas deixaram no país marido e filhos, por vezes recém-nascidos. Nos primeiros dias, elas se hospedam na casa de um parente ou de conhecidos, o tempo necessário para encontrar um emprego de “interna”. Uma “interna” é uma empregada de casa particular que fica morando no seu local de trabalho. A sua função é de manter a casa arrumada, e, dependendo dos casos, ela cuida das crianças ou de uma pessoa idosa.
Em geral, ela fica a mercê dos seus empregadores, sendo obrigada a aceitar toda e qualquer tarefa por um baixo salário, e, quase sempre, não tem horários de trabalho nem dias de folga. Contudo, o lado bom da coisa é que há trabalho em abundância. Os jardins públicos dos bairros elegantes estão povoados de babás andinas que vigiam crianças pequenas trajando roupas de renda e calções de veludo impecavelmente passados.
Esta primeira atividade apresenta três vantagens. Em primeiro lugar, ela evita ter que pagar um aluguel, o que, em Madri, é essencial. Além disso, ela permite beneficiar da gratuidade do atendimento médico, que é concedida a toda pessoa inscrita na prefeitura, que ela esteja ou não com os seus documentos regularizados. Por fim, ela permite, depois de dois anos, de entrar com um pedido para obter uma autorização de permanência no território e uma licença de trabalho, as quais são geralmente concedidas.
Aqueles que chegaram antes de 2005 quase sempre beneficiaram, sem precisar aguardar por um prazo tão demorado, de uma regularização coletiva periodicamente decidida pelos governos. Desde 1996, um pouco mais de um milhão de estrangeiros obtiveram documentos desta maneira.
Com a sua autorização de permanência no bolso, a jovem mulher conseguiu encontrar um outro trabalho, desta vez como “externa”. Depois de mais um ano, a renovação da sua primeira autorização de permanência lhe permite trazer toda a sua família. Os pedidos de reunião familiar passaram de 312 em 2000 para 75.000 em 2005. A dificuldade consiste então em encontrar um lugar para morar.
Os imóveis disponíveis para locações são relativamente raros na Espanha; então, as famílias reconstituídas compartilham as moradias entre elas. “Quase sempre, eles se amontoam em alojamentos com uma família por dormitório”, relata Raúl Jiménez, o presidente da associação Rumiñahui, que ajuda os equatorianos.
Uma vez instalados, muitos desses homens trabalham na construção civil. Outros encontram diversos tipos de emprego, geralmente sem carteira assinada, na agricultura intensiva das regiões de Múrcia, Valência ou Almeria. O tamanho considerável da economia subterrânea na Espanha é a principal porta de entrada dos migrantes no mercado do trabalho. Lá, eles são recebidos de braços abertos.
O patronato trabalha em favor da imigração, uma vez que ele se queixa da carência de mão-de-obra e vê com bons olhos os salários serem puxados para baixo por esses recém-chegados. Algumas grandes empresas dos setores dos restaurantes e do comércio recrutam funcionários diretamente no Equador ou na Colômbia. Em 2006, 150.000 estrangeiros entraram na Espanha com um contrato de trabalho já assinado.
Pelo fato de encontrarem trabalho, eles constituem uma dádiva para a economia. Vários setores disputam entre si este novo mercado. É o caso dos bancos, que implantaram departamentos específicos para captar a sua poupança, seja para remetê-la à família que permaneceu no país, seja para financiar a compra de um alojamento.
Os poderes públicos também se mostram satisfeitos com a sua vinda. Graças a eles, o regime das aposentadorias está superavitário desde 1999, assim como a Previdência social. Isso acaba dinamizando a economia de muitas cidades. “Nós estávamos precisando disso”, insiste Jordi Hereu, o novo prefeito socialista de Barcelona, cujo município conta 260.000 estrangeiros (ou seja, 16% da população, contra 74.000 em 2001), dos quais a metade é composta por latinos (e um quarto por europeus comunitários).
“Alguns anos atrás, nós perdíamos habitantes, nós discutíamos sobre o possível fechamento de escolas, sobre perda de riqueza. Sem eles, o nosso desenvolvimento seria impossível”. Empurrados por crises econômicas em seus países de origem, os latinos desembarcaram por grupos nacionais. Os colombianos foram seguidos pelos equatorianos a partir de 2000. Com o passar do tempo, as autoridades espanholas impuseram vistos para os súditos desses países. Toda vez, esta medida reduziu drasticamente o fluxo dos imigrantes. Na sua grande maioria, aqueles que se apresentam atualmente no aeroporto de Madri são bolivianos, uma vez que eles não precisam de visto para entrar.
Pelo menos, ainda não. Isso porque, em breve, esta disposição deverá ser revogada. Quando o governo anunciou, em setembro, que o visto seria novamente instaurado para os bolivianos, a informação atravessou instantaneamente o Atlântico. Aqueles que estavam pensando em partir precipitaram a sua viagem. Segundo o Sindicato Unificado da Polícia (SUP), no decorrer das últimas semanas, o número de estrangeiros que desembarcam diariamente em Barajas, o aeroporto de Madri, com a intenção de permanecer na Espanha, teria passado de cerca de 500, em média, para mais de 3.000 em determinados dias.
Com isso, agências de viagens desonestas aproveitaram imediatamente a oportunidade. O pacote para o “falso turista”, que era vendido anteriormente a 1.100 euros (R$ 3.041,48) para os bolivianos, alcançou neste outono a quantia de 2.700 euros (R$ 7.465,45). Essa tarifa inclui supostamente tudo o que for necessário para convencer a alfândega espanhola de que eles não são nada além de turistas que vieram passar alguns dias em Madri, ou seja, uma passagem aérea de ida e volta e algumas noites no hotel pré-pagas.
“Em muitos casos”, comenta com indignação María Luz Valdivia, a coordenadora da Acobe, “nenhum quarto de hotel chegou a ser reservado. A alfândega acaba descobrindo isso e manda os bolivianos de volta para o seu país”. Para esses bolivianos, a perspectiva de uma regularização coletiva foi por água abaixo em setembro de 2006, quando o governo anunciou que não haveria mais nenhuma decisão nesse sentido.
Geralmente de origem rural e com pouca formação, eles constituem atualmente “um grupo vulnerável”, resume Hugo Bustillos, um advogado boliviano que os ajuda no quadro da Acobe. Para esses recém-chegados, a única maneira de regularizar os seus documentos será de provar um “enraizamento” de ao menos três anos.
Tradução: Jean-Yves de Neufville

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