Eu já estava há algum tempo pensando em colocar no ar um post sobre este assunto. Quando recebo candidatos buscando fazer um programa de MBA na IE, seja no escritório, em nossos eventos ou em feiras de MBAs, o assunto vem à tona. Quem está no mercado há mais tempo comenta que há alguns anos, o aluno que aplicava para um MBA primeiro decidida se queria estudar na Europa ou nos Estados Unidos, mas que hoje isso mudou bastante, e eu vivo o resultado dessa mudança. Há muitos profissionais que, quando decidem aplicar para um MBA, escolhem tanto escolas na Europa quanto nos Estados Unidos e, quando recebem admissão em lados diferentes do mundo, sentem-se obrigados a tomar uma decisão que, para alguns, não é fácil.

Foi pensando nessas pessoas e também naqueles que já conhecem essa discussão, que preparei este post. São reflexões que, em sua maioria, representam um consenso do mercado de MBA, mas que valoriza, sobretudo, os ativos do MBA no velho continente.

Afinal, não haveria outra forma de escrever este post, senão com o incontrolável impulso de defender o lugar onde estou no momento em que escrevo este texto que é a minha segunda casa, se não for de fato, a primeira. Tentei ser o mais imparcial possível e acho que consegui fazer um bom papel neste sentido.

O reconhecimento

Houve um tempo em que a decisão de fazer um MBA na Europa passava, necessariamente pela reflexão de que o diploma não teria o mesmo reconhecimento de um mestrado em uma escola de alto nível nos Estados Unidos. Isso mudou bastante. É claro que as escolas americanas conhecidas como Ivy League têm uma reputação centenária que reverbera fortemente no Brasil. Nomes como Harvard ou Stanford são selos de qualidade que se sobrepõe ao próprio perfil do ex-aluno. Mas, hoje em dia, o mercado de trabalho e as oportunidades para empreendedores reconhecem com tanta importância as cinco grandes escolas europeias quanto as principais escolas americanas. É mais do que isso, os skills desenvolvidos por talentos que passaram por grandes escolas europeias são diferentes daqueles desenvolvidos em grandes centros de formação em negócios dentro dos Estados Unidos.

A importância das escolas europeias está refletida no mais relevante ranking publicado sobre as escolas de negócio, o ranking do

Quantidade de escolas de negócio européias e americanas entre as 25 principais instituições do mundo

Financial Times. Em 2010, número de escolas europeias listadas entre as 25 principais escolas do mundo era o mesmo das escolas

americanas. Atualmente, algumas escolas europeias deram lugar a importantes instituições asiáticas. Essa, aliás, é uma tendência que deverá ganhar força nos próximos anos, mas que discutiremos em outro post.

Hoje em dia existe uma admiração e uma expectativa grande voltada para os profissionais formados em grandes escolas europeias. O mundo está mudando. As regras do ambiente de negócios global estão muito diferentes. As empresas querem sangue novo e estão buscando pessoas capazes de mudar, inovar e transformar suas empresas. Algumas escolas europeias estão muito a frente das americanas quando o assunto é inovação. E mais, se o plano do aluno é voltar para o Brasil, o ambiente de negócios americano, ultra-liberal e baseado nas regaras do livre mercado, têm pouco a ensinar para quem pretende atuar num mercado protecionista regulado por um estado intervencionista, muito parecido com o mercado europeu.

O reconhecimento dos MBAs europeus também foi refletido numa recente pesquisa que eu inclusive postei no Facebook:

Região ou país Salário inicial médio entre 2000 e 2011
Europa 99.822 dólares por ano
Ásia/Ilhas do Pacífico 98.967 dólares por ano
Estados Unidos 97.600 dólares por ano
Canadá 86.182 dólares por ano
Oriente Médico/África 60.852 dólares por ano
Ásia Central 36.634 dólares por ano

Fonte: http://exame.abril.com.br/carreira/mba/noticias/de-2000-a-2011-salario-medio-apos-mba-foi-de-95-mil-dolares-ano

Os salários de MBAs formados na Europa estão ligeiramente acima dos salários dos MBAs formados nos Estados Unidos. É preciso fazer justiça a pesquisa e descontar os salários europeus pela razão da diferença de paridade das moedas. Afinal, nos últimos anos houve uma contínua desvalorização do dólar. Mas ainda assim, mesmo em meio a uma grave crise econômica, os MBAs têm conseguido bons salários depois da formatura. Isso leva a um outro ponto de discussão, o mercado de trabalho.

Os mercados de trabalho

A crise econômica mundial afetou fortemente as economias de países desenvolvidos. As grandes oportunidades estão nos países em desenvolvimento. É com crescimento econômico que  surgem grandes oportunidades de geração de riqueza. A maioria das pessoas que pensa em fazer um MBA busca um retorno financeiro. Apesar de existir cada vez mais candidatos que buscam carreiras em áreas como Empreendedorismo Social, CSR e no terceiro setor e gente com formação acima da média que têm como objetivo transformar a sociedade. Mas essa discussão, que merece um post exclusivo, fica em segundo plano quando o tema central é o retorno sobre o investimento feito no MBA.

Neste caso, para quem deseja continuar fora do país depois do MBA, a decisão principal deve ser: quer trabalhar e viver nos Estados Unidos? Melhor estudar numa escola americana. Caso a expectativa é buscar trabalho na Europa, é muito mais sensato estudar numa grande escola européia.

Agora, os mercados europeus e americano estão passando por dificuldades que afetam, mais fortemente os jovens profissionais recém-formados na universidade e que buscam sua primeira entrada no mercado de trabalho. Quem já tem experiência e está buscando uma transição de país, não sofre tanto na busca por um novo trabalho.

Plaza de Castilla, Madrid

Enfim, desde 2009, quando fui fazer o MBA em meio a crise mundial, muitos colegas ficaram pela Europa depois do programa. Os perfis foram os mais diferentes e os tipos de oportunidade também. Acredito que, para quem sonha em morar em outro país depois do MBA, a dificuldade não é tanta, ainda mais com tantos recursos de carreiras oferecidos pelas escolas de negócio.

A duração dos programas

Praticamente todos os programas de MBA nos Estados Unidos têm a duração de dois anos enquanto que a quase todos os programas na Europa têm a duração próxima de um ano, com exceção de poucas escolas de negócio. Isso é bom ou ruim? Nem um nem outro. Depende do que a pessoa está buscando e essa diferença tem algumas explicações:

– Os programas de um ano são mais aderentes aos dias de hoje: o MBA, concebido pela primeira vez pela universidade de Darthmuth, completou 100 anos em 2008. As centenárias escolas americanas adotam e mantém o programa de dois anos, formato adequado na época em que as pessoas estudavam na biblioteca e escreviam à mão ou na máquina de escrever. A velocidade do compartilhamento do conhecimento hoje em dia permite um programa de menor duração apoiado em recursos digitais. As escolas europeias, quase todas com programas de MBA criados há cinquenta anos, propuseram um calendário mais atual, aderente a velocidade do ambiente de negócios de hoje em dia.

–  Intensidade dos programas de um ano é maior: os programas de um ano tendem a ser mais intensos e, por causa da duração, mais baratos quando comparados aos programas de dois anos. Em muitos programas tradicionais de dois anos, as aulas terminam ao meio-dia, as sextas-feiras muitas vezes são livres, os breaks da primavera e os verões são mais longos. Enfim, a quantidade de horas não é diferente de um programa de um ano, onde as aulas vão até o meio da tarde, não há dias livres e os breaks ficam por conta dos feriados e do verão. Os programas de dois anos são adequados para quem precisa de mais tempo para preparar um job search durante o MBA. Por outro lado, prolongam demais a duração de um programa num ambiente em que o tempo é o principal fator escasso para um jovem talento.

–  O retorno do investimento é maior para os programas de um ano: os programas na Europa apresentam um retorno sobre o investimento, em média, 150% maior do que os programas de dois anos. A conta é simples, todo mundo conhece, mas não é todo mundo que para e pensa sobre isso. Parar e pesar o quão importante é conseguir rentabilizar um MBA é uma conta que nem todos estão dispostos a fazer, principalmente porque o MBA é uma decisão de vida e uma experiência transformacional. Ou seja, há coisas que não são monetarizáveis.

Enfim, quando eu cheguei no final do meu MBA, minha principal reflexão foi: como é que alguém consegue suportar outro ano estudando estratégia, operações, finanças, comportamento organizacional, empreendedorismo, etc.? Eu estava ansioso para colocar em prática as coisas que havia aprendido. Esta reflexão é compartilhada por todos os ex-alunos de escolas europeias com quem conversei e esse é o principal aspecto da diferença de duração dos programas que é sensível a mim.

 A experiência

Se você perguntar para qualquer ex-aluno, de qualquer escola de negócios de ponta, se valeu a pena fazer um MBA, a resposta vai ser a mesma: sim. Não é só isso, a pessoa vai contar o quanto foi bacana conhecer gente e fazer amigos, aprender coisas novas, estudar de verdade e com muito empenho, ter tempo de parar e pensar nas prioridades e na vida como um todo, etc. Todos irão tentar te convencer de que foi o melhor negócio do mundo, não importa a escola de negócios, nem o país.

Mesmo assim, uma coisa é certa, as experiências não são comparáveis. Viver numa cidade do interior dos Estados Unidos não tem a ver com a vida em uma grande cidade cosmopolita. Os objetivos e necessidades de um casal que vai fazer o MBA juntos não é compatível com o aluno que viaja sozinho com 28 anos, nem tampouco tem a ver com o aluno de 35 anos que viaja com acompanhante e, muitas vezes, um ou mais filhos. Enfim, para cada necessidade existe uma experiência que se encaixa melhor.

Mercado San Miguel, Madrid

O que é possível dizer é que a Europa, pela seu estilo caótico, vanguardista, cosmopolita, pela história e ambiente de contrastes multiculturais, é um lugar único. É o “melting pot” da humanidade e um lugar mágico cheio de surpresas inesperadas e sensações inusitadas.

Os Estados Unidos, eu já vivi lá, é um grande país. Uma terra de oportunidades e um país de proporções continentais onde os recursos são fartos e a cultura capitalista se desenvolve na sua forma mais pura. É o país da dívida e do consumo sem fim.

Falar que os Estados Unidos são assim ou que a Europa é assado seria uma falácia.  A grande verdade é que a decisão de ir passar um ou dois anos em um lugar ou no outro passa pela reflexão sobre o que a pessoa espera dessa experiência e se vai encontrar aquilo que busca no país, cidade ou na escola em que pretende estudar.

A diversidade

Eu costumo brincar que as principais escolas europeias possuem um nível de diversidade cultural no campus que só é possível encontrar nos jogos olímpicos, na copa do mundo ou numa conferência da ONU. Mais de 80 nacionalidades divididas em grupos de menos de 1.000 alunos é algo impensável e de um valor tão monumental hoje em dia que este talvez seja o divisor de águas entre as escolas de negócio dos dois “continentes”. Agora, é frustrante escrever sobre diversidade sem conseguir transmitir o real significado da palavra.

Segóvia, Espanha

As escolas europeias são, por natureza, mais diversas que as escolas americanas. Mas atenção, o conceito de diversidade transcende as várias línguas faladas no campus que oferece ao aluno uma rede de contatos internacional. Diversidade é muito mais do que isso. Trata-se da complexidade de oferecer um ambiente diverso. Um ambiente onde não há soluções pré-definidas para problemas vividos no passado, mas sim num ambiente diverso o suficiente, em que as pessoas sejam capazes de pensar de forma diferente por terem vivido em lugares diferentes, estudado assuntos diferentes, trabalhado em ambientes distintos para que, enfim, sejam capazes de pensar de forma divergente, ou “fora da caixa” como costumam dizer. E é no ambiente divergente que surge a inovação. A capacidade de criar ou de ser criativo passa, obrigatoriamente, pela oportunidade de enxergar algo que a pessoa sozinha ou dentro de um grupo homogêneo, não teria informações ou recursos para fazê-lo.

 DIVERSIDADE + PENSAMENTO DIVERGENTE = CRIATIVIDADE

E é esse, na minha opinião, o principal defeito das escolas americanas. Nos Estados Unidos existe um ecossistema  de formação em negócios que se auto-alimenta. Nele, as escolas americanas são financiadas por grandes corporações via doações e, em contrapartida, devolve para estas corporações, milhares de MBAs todos os anos. Esse sistema, de certa forma, contribuiu para que as escolas americanas não conseguissem atingir níveis relevantes de internacionalização. A maioria delas possui turmas formadas em sua maioria (mais de 70%), por alunos americanos.

Esse sistema chegou a um ponto de inflexão após a crise financeira de 2008. As doações diminuíram significativamente e as escolas, quase todas estruturadas de forma muito conservadora, não conseguiram evoluir para um modelo voltado para mercados internacionais. Essa orientação aos mercados internacionais está acontecendo apenas agora e, mesmo assim, muitas escolas americanas ainda não deram importância para o tema.

Este importante ponto de discussão rendeu um artigo publicado pela Della Bradshaw, editora da área de Management Education do Financial Times, em 2010. Para conferir, é só clicar no link a seguir:

http://www.ft.com/intl/cms/s/0/3a225134-966a-11df-96a2-00144feab49a.html

A diversidade, enfim, seja ela complexa ou não, é um ativo exclusivo de poucas escolas europeias. Cabe a você atribuir o peso desse componente na sua tomada de decisão.

PS: Peço desculpas pelo tamanho do post, mas a argumentação poderia ser ainda mais longa dada a complexidade do assunto.

3 thoughts on “MBA na Europa ou Estados Unidos? É bom pesar os prós e os contras na hora de aplicar!

  1. Teresa Cristina Lacerda

    Grande valia o post, realmente temos em mente sempre as escolas como Harvard. É interessante a forma que compartilho sua experiencia, isso nos ajuda realmente em fazer uma reflexão num âmbito amplo em cultura, conheceminto, experiência e finanças devido tempo do curso.
    Parabéns pelo post.

  2. Fábio Pereira

    Olá,

    primeiramente parabéns pelo artigo. Ando lendo sobre o assunto e confesso que sempre tive as grandes escolas de negócios americanas como sonho de consumo para realização de um MBA. No entanto senti falta de críticas relacionadas às escolas de negócios Europeias, pelo que parece você ainda está em lua de mel com alguma delas. Tive a oportunidade de cursar um período de management no sul da florida, mais especificamente em Boca Raton. Apesar de muito jovem, aproveitei bastante a experiência. Encontrei sim diversidade nos EUA, convivi com espanhóis, suíços, portugueses, japoneses, chineses e (obviamente) americanos. Foi uma experiência incrível. Concordo plenamente quando você diz que diversidade vai muito além das diferentes línguas, ela perpassa por idéias, percepções, formas de ver e viver o mundo. Tive oportunidades de conhecer várias cidades destacando Miami e Nova York, onde também pude perceber essa questão da diversidade muito mais atenuada do que temos no Brasil. A crítica que faço ao que conheci da business education dos EUA está na falta de modelos alternativos de gestão. Pude conhecer e compreender modelinhos gerenciais de consumo rápido, com pouco ou nenhum direito à reflexão. Nesse ponto acredito que as universidades de negócios europeias estão à frente das americanas por terem um elemento cultural mais voltado ao raciocínio reflexivo do que à utilidade prática. No mais, confesso que é muito difícil decidir onde quero cursar o MBA, não tenho dúvidas que utilizarei meu feeling como base de tomada de decisão.

  3. James

    Ola,

    um bom recurso para obter informações de atuais alunos de MBA é este novo site que alguns alunos de IESE. E uma escola de MBA na Espanha.

    http://mbaexchange.weebly.com/

Deja un comentario

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*

clear formSubmit