Este artigo publicado no jornal “O Globo” da semana passada pela escritora Martha Medeiros me chamou atenção pois resume de uma maneira muito eloquente o estilo de vida que estamos construindo para nossas famílias aqui no Ocidente. O artigo toma como base para discussão o caso do adolescente sul-coreano “maluco” que matou um monte de gente nos Estados Unidos há algumas semanas.
Me pareceu importante publicá-lo aqui porque na semana passada eu estive em Madri para uma reunião dos diretores dos escritórios do IE pelo mundo e o presidente e proprietário do IE, Diego de Alcázar nos comentava que quer humanizar cada vez mais os cursos de nossa Escola. Sua idéia é incorporar gradualmente cursos como “A História da Arte”, “Literatura Oriental”, “Pintura Clássica”, etc aos cursos de business do IE porque ele acredita que os cidadãos do futuro terão muita carência em conhecimentos deste tipo. A sociedade atual está formando pessoas voltadas a “carreiras” e à busca pelo “estrelato” desde seus berços e por este motivo muitas pessoas estão deixando de ser pessoas. Achei sua visão muito correta e visionária. O artigo da Martha Medeiros complementa esta visão.
Bem, aqui vai:
“Mato, logo existo”
Martha Medeiros
Não é um bom assunto para domingo, reconheço. Mas estamos sempre tão ocupados nos dias da semana que não custa reservar dez minutinhos do dia de folga para refletir um pouco sobre que espécie de adultos está sendo formada aqui no mundo. O sul-coreano que no dia 16 de abril matou 32 pessoas dentro de uma universidade americana é um exemplo – a essa altura, já antigo, mas serve. Era um doente, e qual a doença dele? Solidão, depressão. Não se pode chamar de caso raro.
Um dia depois da tragédia, entrei numa sala de bate-papo na internet para ler os comentários sobre o episódio. Até então, não estava tão perplexa – é um crime recorrente nos Estados Unidos. Mas ao me me deparar com a reação de alguns brasileiros da mesma faixa etária do assassino, aí sim estarreci. Nunca vi um conjunto de idéias tão preconceituosas, agressivas e mal escritas. Era o festival da ignorância. Uma amostra da miséria cultural, intelectual e afetiva que caracteriza os novos tempos. Ninguém discutia com civilidade, os comentários eram belicosos e ferozes e, quando discordavam uns dos outros, aí é que a baixaria rolava solta. Pensei: eles estão protegidos pelo virtualismo , mas se estivessem frente a frente e com uma arma ao alcance da mão, quem garante que não teriam seu dia de Cho Seng-Hui?
Esses garotos e garotas têm a rebeldia natural da idade, mas é uma rebeldia sem argumento, vinda do desespero. Eles cresceram assistindo a uma quantidade exagerada de violência na TV e no cinema, idolatram músicos que cantam coisas como ” eu escrevo minhas próprias leis com a morte “, têm pouco contato com o pai e a mãe, mantêm amizades de faz-de-conta e são soterrados por uma avalanche de informações que mal conseguem filtrar. Tudo isso numa sociedade cada vez mais competitiva, na qual a ordem é aparecer a qualquer custo. A felicidade há muito deixou de se concentrar na trinca amor-saúde-dinheiro: agora é popularidade-sexo-e-muito-muito-muito-dinheiro. Quem tem uma vida modesta se frusta: conclui que é uma pessoa que não existe, que não conta, que não vale . E resolve dar o seu recado na marra.
Impossível esse relato não soar dramático, mas irreal não é. A vida mudou. E temos alguma responsabilidade nisso, não somos apenas vítimas, mas cúmplices. Está mais do que na hora de ficarmos mais perto de nosso filhos. De oferecer a eles livros e música boa, dar muito carinho e elogio, ficar de olho nos lugares onde eles vão e em com quem saem – um pouco de controle não faz mal a ninguém. É recomendável também tirar um sarro dessas revistas que vivem de fofoca, ridicularizar a fixação pela estética, mostrar a eles que os super-heróis de verdade costumam ser mais discretos.
Porém, discrição é uma coisa, fuga é outra. É preciso chamar essa garotada para um papo quando estiver silênciosa demais, ajudá-la a compreender essa loucura aí fora (que nem nós compreendemos direito), levá-la para viajar quando der, colocá-la em contato com hábitos mais simples e escutá-la muito, não importa sobre que assunto.
É guerra: agressividade e miséria existencial que caracterizam nossa época precisam ser enfrentadas não só com Prozac, mas com cultura e afeto. A grande maioria dos adolescentes que aí estão não conseguirá ganhar fortunas, não vai virar artista nem doutror, não vai se casar com homens com barriga tanquinho nem com mulheres que autografam a “Playboy”: eles vão ter uma vida normal. E se o normal seguir não servindo para eles, pobres de nós todos.

2 thoughts on “Mato, logo existo

  1. Uma pena eu não ter lido essa matéria da Martha antes… foi realmente brilhante, ela disse tudo. O “normal” está cada vez mais desvalorizado atualmente, os jovens só pensam em ficar “famosos”, custe o que custar. É aterrorizante.

  2. Bruno

    Faço das suas palavras as minhas Karina, parabéns pela matéria Newton.
    Abraços

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