A recente mudança do comportamento das empresas europeias no Brasil é algo que vale a pena discutir. Não dá para deixar de notar a quantidade de franceses, italianos, portugueses e, principalmente, espanhóis pelas ruas de São Paulo.

Basta sair para almoçar no Itaim e você já encontra outros pedestres falando outras línguas ou um português com um forte sotaque. A presença de executivos no Brasil tem suas explicações. Na semana passada, uma pesquisa conduzida pela IE Business School com executivos espanhóis revelou que o Brasil é o principal mercado para investimento de empresas espanholas nos próximos anos. A pesquisa foi alvo de uma reportagem divulgada no Brasil Econômico.

Reportagem no jornal Brasil Econômico divulga pesquisa com executivos espanhóis sobre a perspectiva de investimentos no Brasil

É curioso observar como esta revelação vai na contramão de uma outra pesquisa feita pelo JPMorgan recentemente que apontou para uma rodada relevante de “desinvestimentos” de empresas europeias no Brasil nos últimos anos.

Neste post eu apresento na íntegra a reportagem que revela a importância do mercado brasileiro para os investimentos de empresas europeias no Brasil e também a opinião de um ex-aluno da IE Business School que atualmente trabalha em uma grande empresa espanhola e fala um pouco sobre o outro lado da moeda.

 

Desinvestimentos em série

 

Investimentos de empresas europeias cresceram muito nos últimos anos. Principalmente os investimentos feitos por companhias espanholas na América Latina, em especial, no Brasil nos últimos 10 anos. Os investimentos estrangeiros diretos provenientes da Espanha aumentaram em US$130bilhões ao longo de 20 anos e agora, com a Europa em crise e a diminuição do endividamento do sistema financeiro europeu, o último ano registrou uma série de “desinvestimentos” em série, totalizando US$25bilhões em transações nas quais empresas europeias liquidaram parcialmente ativos considerados “jóias da coroa” a valores de mercado bastante atraentes, de acordo com relatório produzido pelo JPMorgan no início de 2012.

Algumas das principais transações observadas este ano em que empresas europeias alienaram sua participação em investimentos na região foram:

– Venda de ativos por parte do Santander, Repsol e Brisa

– Santander Espanha vendeu participação de 7,8% no Santander Chile

– Santander Espanha vendeu US$2,7bilhões em dívida conversível para Qatar Holdings, reduzindo sua participação no Santander Brasil para 84%

– Repsol diminuiu sua participação na YPF Latam em 25% (equivalente a US$3,5bilhões)

– Brisa vendeu participação de 16% na CCR por um valor total de US$1,3bilhões

– Santander anunciou a venda de 3,5% da sua operação na Colômbia para o banco chileno Corpbanca

– GALP assinou acordo para a venda de participação de 30% em sua operação no Brasil para a chinesa Sinopec por US$4,8bilhões

– Sinopec também havia comprado 40% da operação da Repsol no Brasil por US$7,1bilhões em 2010

Entretanto, na contramão dos “desinvestimentos”, ainda houve investimentos relevantes na região feitos por empresas europeias:

Edifício da Vivo em São Paulo

– Compra da participação da Portugal Telecom na Vivo, pela telefônica, por US$7,5bilhões

– Investimento da Telecom Itália na Tim Participações, no final de 2011, por US$1,1bilhões

– Casino aumentou participação na CBD em US$1,1bilhão

De uma forma geral, estima-se que as necessidades de capital por parte de instituições financeiras na Europa deverão continuar a causar um impacto relevante sobre o endividamento das companhias e, que de uma forma geral, as operações de empresas europeias na América Latina sejam fonte relevante de capital para as operações dessas empresas na Europa.

 

ENTREVISTA: ex-aluno da IE Business School, especialista sobre o tema, explica os desinvestimentos no país e a remessa de dividendos para o exterior e faz suas previsões


1) Que impacto este tipo de medida pode trazer para as operações de empresas européias no Brasil, em especial, para a sua companhia?

Não acredito que haverá desinvestimento em massa de empresas européias, especialmente as empresas ligadas ao setor financeiro, pelos seguintes motivos:

–       Os investimentos dessas empresas no Brasil estão entre os mais rentáveis dos seus portfólios no mundo e;

–       funcionam como uma excelente ferramenta de diversificação de riscos, dado o cenário atual. Vender a jóia da coroa agora e sacrificar resultados futuros é aumentar as chances de fracasso de suas matrizes.

O que eu vejo é uma tendência de remessa de lucros dessas empresas às suas matrizes no exterior que deve permanecer no longo prazo e baixos níveis de investimentos nos próximos anos. Quanto a remessa de lucros há uma vantagem na legislação brasileira que limita a distribuição de dividendos a 25% do lucro do exercício, dificultando uma descapitalização grande no curto prazo.

2) Qual o comportamento dos executivos das empresas do seu setor com relação a este fenômeno?

No setor financeiro há muita apreensão para os desdobramentos da crise na Europa, o que pode no limite acabar com a união monetária da zona do euro o que traria impactos difíceis de mensurar para o mundo. Executivos do setor financeiro, no entanto, de uma forma geral, estão em busca de compensar o resultado negativo de suas matrizes no exterior buscando novas oportunidades de negócios no mercado brasileiro. A explosão do setor imobiliário e do crédito ao consumo é um reflexo desse movimento.

3) Você acha que grandes empresas Européias estariam dispostas a abrir mão do controle de suas operações na América Latina? Até que ponto as empresas europeias se sentirão pressionadas a vender suas participações na América Latina?

Acredito que empresas europeias estarão dispostas a abrir mão de ativos não estratégicos na América Latina, como foi o caso do Banco Santander. A venda de participações societárias do banco em países da AL (com exceção do Brasil) se deu por um motivo bem simples: O banco não considerava sua participação nesses ativos estrategicamente relevante. O banco tem por objetivo estar entre os líderes (pelo menos entre os quatro maiores) nos mercados em que atua e, em nenhum desses mercados, isso

Novo edifício do Banco Santander - Avenida JK (São Paulo)

acontecia. O caso do Brasil foi um movimento já previsto que veio de encontro com a necessidade. Após o IPO o banco se comprometeu até o final de 2013 a ter 25% de suas ações em free float, esse desinvestimento já estava programado com o intuito de cumprir essa meta, talvez ele tenha sido apenas antecipado em virtude da crise.

4) Na sua opinião, faz sentido pensar que pode haver um movimento inverso, no qual empresas brasileiras, competidoras de gigantes europeus, passem a comprar participações societárias nas matrizes de empresas Europeias?

Faz sentido, mas não vejo isso como uma tendência no curto/médio prazo. Há um universo inexplorável de oportunidades no mundo emergente que ocupará lugar de destaque na agenda das empresas nesses países por um bom tempo. Em contrapartida, por mais que os ativos estejam com preços mais atrativos na Europa, o mercado continua instável e com um viés muito conservador que deve perdurar no curto/médio, Falaram que seria a oportunidade de ouro investir no mercado imobiliário americano depois da crise, mas o mercado continua patinando por lá até hoje. Em suma, não basta estar barato para comprar, tem que haver perspectiva de que o que está barato hoje, vai valorizar amanhã, o que não é o caso….

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